sexta-feira, 18 de maio de 2018

As Mulheres na Bíblia - Parte 6 - Febe



Aparecendo sucintamente na Bíblia, quem foi Febe? Que ato memorável ela fez para Paulo mencioná-la em sua carta aos Romanos? E, finalmente, que lição podemos tirar desta mulher que tanto fascina os estudiosos cristãos?

Com nome de origem latina, uma vez que o latim era o idioma oficial do Império Romano, inclusive o site dicionariodenomesproprios.com.br é breve ao nos revelar seu magnífico significado:

“Febe: Radiante, brilhante”.


Mas a Bíblia de Estudo Plenitude é um pouco mais detalhista ao revela-lo: “Pura e brilhante como a Lua”.

Este nome pode parecer um pouco incomum, mas Febe talvez seja mais popular nos Estados Unidos, com sua tradução “Phoebe”, do qual dá nome à personagem da famosa série Friends:


Partindo para a Palavra, no capítulo 16 da carta de Paulo aos Romanos diz:

1. Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual servindo à igreja que está em Cencréia,
2. Para que a recebais no Senhor, como convém aos santos, e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive.

Romanos 16:1,2

Cencréia era uma antiga cidade portuária próxima de Corinto. Atualmente suas ruínas se encontram ao lado de uma aldeia chamada Kechriais.







Apesar da pequena passagem, os termos utilizados por Paulo suscitaram uma controvérsia entre alguns teólogos e historiadores. Especificamente as palavras “servindo” e “protetora” causaram um problema de hermenêutica. Quanto a palavra “servindo”, a Bíblia de Estudo Plenitude diz:

“Febe, provavelmente, tenha levado a epístola de Paulo a Corinto para a igreja em Roma. Servindo: esta palavra pode ser traduzida por ‘ministrar’ (como em Mc 9:35; Jo 2:5,9; Rm 13:4; 15:8) ou ‘diácono’ (como em Fp 1:1; 1Tm 3:8,2), dependendo se alguém achasse que Febe tinha um cargo formalmente conhecido na igreja de Cencréia, cidade portuária situada muito perto de Corinto. Aqueles que traduzem ‘servindo’ acham que as exigências de 1Tm 3:12 tornam improvável Febe estar no cargo de diaconisa. Não parece haver uma ordem definitiva no NT contra mulheres em papeis de liderança no ministério”.   

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 16.1, pág. 1176.

E também uma definição para a palavra “protetora”:

“A palavra grega para protetora não é encontrada em mais nenhum lugar no NT. Fora do NT, às vezes, é usada em relação a uma ‘benfeitora’, uma mulher que fornecia ajuda e fundos para causas dignas”.

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 16.2, pág. 1176.

Conforme lido acima, “servir” a igreja nos dá a impressão de que Febe era ministra. Mas a tradução da palavra grega di.á.ko.nos (shammash no hebraico) é masculina, confundindo os estudiosos quanto ao cargo de Febe. Assim como Priscila (At 18:1), naquele tempo parecia haver uma sujeição da esposa em relação ao marido, como atesta na carta de Paulo a Timóteo:

11. Da mesma sorte as esposas sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo.
12. Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas.
13. Porque os que servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus.

1 Timóteo 3:11-13
  
Mas, igualmente à Priscila, não havia impedimento social ou bíblico caso o marido acompanhasse sua esposa em sua carreira ministerial, ou vice-versa, conforme a passagem acima. Para mais informação, ver meu texto exclusivamente sobre Priscila:


Ao referir-se a Febe como “protetora”, a tradução fica um pouco mais interessante. A tradução da palavra grega pro.stá.tis seria “patrocinadora”, nos dando a impressão de que Febe, além de ministrar a igreja, a ajudava com bens materiais. Mas, apesar da inicial ideia, poderia incluir uma gama de significados muito maior.

O site wol.jw.org lança uma luz à esta dúvida, a seguir:

(...) O termo traduzido por “defensora” (pro·stá·tis) tem o sentido básico de “protetora” ou “socorredora”, de modo que dá a entender não mera cordialidade, mas ir em auxílio de outros em necessidade. Pode também ser vertido por “patrocinadora”.

A liberdade que Febe tinha para viajar e para prestar serviço notável na congregação talvez indique que ela era viúva e possivelmente dona de certa riqueza material. De modo que ela pode ter estado em condições de usar a sua influência na comunidade a favor dos cristãos que fossem acusados erroneamente, defendendo-os assim; ou talvez lhes tenha provido refúgio em épocas de perigo, servindo de protetora. O registro não fornece pormenores.    



Particularmente, concordo com a citação acima. É muito provável que era viúva ou rica, ou ambos, pois sua liberdade em viajar pelo império para socorrer os cristãos a torna notória inclusive a Paulo, eternizando-a em sua carta aos Romanos.

Neste caso, a comparo com Lídia (At 16:14), a formidável serva do Senhor, matriarca da igreja cristã na Europa. Link a seguir para quem quiser saber mais:


Resumindo, este estudo nos dá uma verdadeira lição sobre a vida de Febe:
  • Sendo diaconisa, Febe quebra alguns paradigmas de que as mulheres não devem ministrar (Rm 16:1);
  • É uma mulher protetora, benfeitora, patrocinadora, além de ministra da igreja em Cencréia. Ou seja, uma extraordinária serva do Senhor (Rm 16:2);
  • Entretanto, deve-se ressaltar que, para a carreira ministerial, as mulheres não devem negligenciar suas famílias, suas casas e principalmente seus maridos (1Tm 3:11-13);  

Devido à sua estupenda devoção, Febe foi capaz de chamar a atenção de Paulo em seu ministério. Evidentemente o apóstolo não está mais aqui para ver, mas Deus sim. O que estamos fazendo nós para chamar Sua atenção também? Estamos frios e mornos na igreja ou servindo e protegendo a fé no Senhor?

Sejamos, pois, como Febe, servindo a Deus com excelência e tendo nossos nomes eternizados na Igreja Cristã!



- Eduardo Redux




sábado, 12 de maio de 2018

As Mulheres na Bíblia - Parte 5 - Abigail


 

Abigail, a exemplar mulher temente ao Senhor. De tantas qualidades, Abigail merece um lugar especial no coração das mulheres. E também no coração dos homens, como a esposa ideal a se almejar.  

O significado de seu nome também é muito belo, não sendo apenas orgulho para seu esposo, mas também para seu pai. O site dicionariodenomesproprios.com.br diz:

Abigail: Significa “alegria de meu pai”, ou possivelmente “aquela cujo pai é alegria”. Tem origem no hebraico Abhigáyil, composto pelos elementos abh, que significa “pai” e gil, que quer dizer “regozijar-se”.

Personagem bíblica citada no Antigo Testamento nos livros de 1 Samuel e 2 Samuel, Abigail foi uma das esposas do rei Davi. No livro de 1 Crônicas é também revelado que uma das irmãs de Davi também se chamava Abigail.

No século XVII, o nome Abigail chegou a ser utilizado como gíria para designar um servo, em virtude da personagem característica da peça muito famosa escrita por Francis Beaumont e John Fletcher.


No primeiro livro de Samuel, diz a Palavra que Davi, fugindo do rei Saul, habitou no deserto de Parã, ao sul da região do Carmelo em Israel. Lá ele conheceu Nabal, um homem muito rico e poderoso, mas igualmente truculento e maligno (1 Sm 25:1-4).

É importante ressaltar que Carmelo não se refere Monte Carmelo, mas um monte hoje conhecido como Kurmul, localizado nas montanhas de Judá, mais ou menos a 1,5 km de Maom.


3. E era o nome deste homem Nabal, e o nome de sua mulher Abigail; e era a mulher de sensata e formosa; porém o homem era duro, e maligno nas obras, e era da casa de Calebe.

Davi e seus homens, cerca de 600 pessoas, viviam nas duras condições do deserto e, apesar de cansados e famintos, nunca roubaram das possessões de Nabal. Ao invés, é dito que ele ajudava a apascentar as ovelhas e a proteger a fronteira sul dos eventuais invasores, o que era muito comum naquele tempo.

Ao humildemente pedir a Nabal que lhe desse alimentos e provisões, Nabal responde mal aos seus mensageiros, o que suscita grande indignação e ira em Davi.   

10. E Nabal respondeu aos criados de Davi, e disse: Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos servos há hoje, que fogem ao seu senhor.
11. Tomaria eu, pois, o meu pão, e a minha água, e a carne das minhas reses que degolei para os meus tosquiadores, e o daria a homens que eu não sei donde vêm?

A dura resposta de Nabal confirmava seu nome, que significava “tolo”, e logo ele pagaria o preço por sua tolice. Ao chama-lo de servo, Nabal insultava-o, afirmando que Davi era um escravo covarde, fugido de seu senhor (o rei Saul), e não o campeão do duelo com Golias e futuro rei de Israel.

Cheio de ódio, Davi desembainha sua espada e, com seus homens, intentam matar a todos os homens da casa de Nabal. Porém, algo acontece antes.

14. Porém um dentre os moços o anunciou a Abigail, mulher de Nabal, dizendo: Eis que Davi enviou mensageiros desde o deserto a saudar o nosso amo; porém ele os destratou.
15. Todavia, aqueles homens têm-nos sido muito bons, e nunca fomos agravados por eles, e nada nos faltou em todos os dias que convivemos com eles quando estavam no campo.
16. De muro em redor nos serviram, assim de dia como de noite, todos os dias que andamos com eles apascentando as ovelhas.
17. Considera, pois, agora, e vê o que hás de fazer, porque o mal já está de todo determinado contra o nosso amo e contra toda a sua casa, e ele é um homem vil, que não há quem lhe possa falar.


Neste momento, Abigail demonstra ser uma sábia mulher. Prevendo a destruição de sua casa e de sua família, ela apressa-se a acatar o pedido de Davi, preparando-lhe um farto banquete. Em seguida Abigail envia seus servos adiante pelo caminho, sem, porém, declarar nada a seu marido.

18. Então Abigail se apressou, e tomou duzentos pães, e dois odres de vinho, e cinco ovelhas guisadas, e cinco medidas de trigo tostado, e cem cachos de passas, e duzentas pastas de figos passados, e os pôs sobre jumentos.
19. E disse aos seus moços: Ide adiante de mim, eis que vos seguirei de perto. O que, porém, não declarou a seu marido Nabal.
20. E sucedeu que, andando ela montada num jumento, desceu pelo encoberto do monte, e eis que Davi e os seus homens lhe vinham ao encontro, e ela encontrou-se com eles.

A ira de Davi era tamanha que ele friamente diz aos servos de Abigail:

21. E disse Davi: Na verdade que em vão tenho guardado tudo quanto este tem no deserto, e nada lhe faltou de tudo quanto tem, e ele me pagou mal por bem.
22. Assim faça Deus aos inimigos de Davi, e outro tanto, se eu deixar até amanhã de tudo o que tem, até mesmo um menino.

Mas Abigail, novamente demonstrando sabedoria, se encontra com Davi e respeitosamente se humilha perante ele, prostrando-se com o rosto em terra. É preciso lembrar que era um momento delicado e decisivo ali, pois a vida de sua família dependia unicamente dela.

23. Vendo, pois, Abigail a Davi, apressou-se, e desceu do jumento, e prostrou-se sobre o seu rosto diante de Davi, e se inclinou à terra.
24. E lançou-se a seus pés, e disse: Ah, senhor meu, minha seja a transgressão; deixa, pois, falar a tua serva aos teus ouvidos, e ouve as palavras da tua serva.

Prostrada aos seus pés, Abigail humilha-se em favor de sua casa, implorando perdão pelo insulto de Nabal (v. 24), pedindo para poupar-lhe a vida (v. 25), presenteando-o com as provisões (v. 27), lembrando-o que é ungido do Senhor (v. 28, 29 e 30) e que, um dia, lhe fará rei em Israel (v. 30).


Davi fica profundamente comovido com o apelo de Abigail e, emocionado, responde:

32. Então Davi disse a Abigail: Bendito o Senhor Deus de Israel, que hoje te enviou ao meu encontro.
33. E bendito o teu conselho, e bendita tu, que hoje me impediste de derramar sangue, e de vingar-me pela minha própria mão.
34. Porque, na verdade, vive o Senhor Deus de Israel, que me impediu de que te fizesse mal, que se tu não te apressaras, e não me vieras ao encontro, não ficaria a Nabal até a luz da manhã nem mesmo um menino.
35. Então Davi tomou da sua mão o que tinha trazido, e lhe disse: Sobe em paz à tua casa; vês aqui que tenho dado ouvidos à tua voz, e tenho aceitado a tua face.

A sabedoria de Abigail termina a terrível crise, tornando-a também uma apaziguadora. Satisfeita com a decisão de Davi, ela retorna à sua casa e encontra seu marido alegre e embriagado. Não podendo contar-lhe o ocorrido devido ao vinho, ela espera até de manhã. Mas, pela manhã, algo inesperado acontece.

37. Sucedeu, pois, que pela manhã, estando Nabal já livre do vinho, sua mulher lhe deu a entender aquelas coisas; e se amorteceu o seu coração, e ficou ele como pedra.
38. E aconteceu que, passados quase dez dias, feriu o Senhor a Nabal, e este morreu.

Sobre esta misteriosa morte, a Bíblia de Estudo Plenitude diz que Nabal sofreu um derrame ou um ataque cardíaco.

Mesmo Davi agradeceu a Deus pela morte de Nabal, pois assim não cometeu violência com suas mãos. Apesar das muitas posses, Abigail agora encontrava-se viúva e sozinha naqueles campos. Desta maneira, Davi a convida para ser sua mulher.

39. E, ouvindo Davi que Nabal morrera, disse: Bendito seja o Senhor, que julgou a causa de minha afronta recebida da mão de Nabal, e deteve a seu servo do mal, fazendo o Senhor tornar o mal de Nabal sobre a sua cabeça. E mandou Davi falar a Abigail, para tomá-la por sua mulher.

A reação de Abigail foi um tanto curiosa. Sendo uma mulher rica ao lado de Nabal, ela ainda demonstra tremenda humildade, oferecendo-se não como uma esposa, mas como uma serva para os servos de Davi!

41. Então ela se levantou, e se inclinou com o rosto em terra, e disse: Eis que a tua serva servirá de criada para lavar os pés dos criados de meu senhor.

1 Samuel 25:1-41


Resumindo, é possível dizer que Abigail tinha todas as qualidades de uma genuína mulher temente ao Senhor. Ela era sensata (v. 2), sábia (v. 18), respeitosa (v. 23), inteligente (v. 30 e 31), apaziguadora (v. 32), humilde (v. 41) e, acima de tudo, formosa (v. 2)! Ou seja, Abigail é a esposa dos sonhos!

Evidentemente Davi não teria apenas uma esposa, porém o privilégio da poligamia era restrito apenas aos reis (Dt 17:14-20), talvez por uma questão política, mas mais tarde abolido com o advento do Cristianismo.  

Concluindo, este texto é uma evidência bíblica que mulheres perfeitas existem, e uma delas já tem nome: Abigail.



- Eduardo Redux




domingo, 6 de maio de 2018

Trabalhar é uma Maldição?


Agindo às vezes como uma bênção e outras vezes como um fardo, uma dúvida concernente à liturgia cristã permanece: Trabalhar é uma maldição?

O trabalho em si é essencial e fundamental ao ser humano. Como dizia Benjamim Franklin (1706 – 1790), “o trabalho dignifica o Homem”. Nada é mais honroso do que prover para si mesmo e para sua família o sustento através do seu próprio esforço. Então, neste mesmo conceito, deixar de trabalhar é prejudicial ao Homem? Há um ditado popular que diz: “Mente vazia, oficina do diabo”.

Mas, se há tantas recomendações e sabedorias para não abandonar o trabalho, por que ele – ainda assim – se torna uma moléstia para o corpo e a mente?

Anos atrás escrevi uma poesia a respeito do tema. Link para quem quiser ler:
   

Primeiramente, de onde vem a ideia cristã de que trabalhar é uma maldição? No capítulo 3 do livro de Gênesis, logo após a queda do Homem.

17. E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
18. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.
19. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.
Gênesis 3:17-19

Nestes versículos é necessário fazer algumas observações. No versículo 17 Deus pessoalmente diz que a terra se tornou maldita devido ao pecado de Adão. Em outras traduções bíblicas, a palavra “espinho” (v. 18) é substituída por “abrolhos”, seguida do incomum “cardo”. O site dicio.com as define:

·         Abrolho: Planta rasteira e espinhosa. (Família das rutáceas.). Ponta ou pua do fruto dessa planta. Espinhos, estrepes (sinônimo de espinhos). Escolhos, recifes. [Figurado] Dificuldades, amarguras: vida cheia de abrolhos.


·         Cardo: Nome comum a várias plantas com folhas e hastes espinhosas, da família das compostas, dos gêneros Carduus, Cirsium, Centaurea: cardo-comum, cardo-de-costela, cardo-do-campo.


O site wol.jw.org nos dá uma excelente lição bíblica sobre cardos e abrolhos:

“Qualquer dentre uma variedade de plantas de folhas espinhosas, de bordos recortados, caule duro, e com capítulos arredondados ou cilíndricos que produzem flores macias e sedosas, de cor purpúrea, amarela ou branca”.

“Adão, e mais tarde seus descendentes, tiveram de enfrentar incomodativos abrolhos, ao cultivarem o solo amaldiçoado (Gn 3:17, 18). Visto que suas sementes são espalhadas pelo vento, os abrolhos facilmente ganham terreno em áreas abandonadas ou desoladas (Veja Os 10:8)”.

“Jesus Cristo referiu-se aos abrolhos ao fazer a ilustração de que as pessoas, assim como as plantas, são reconhecidas por seus frutos (Mt 7:16). Na Palestina não é incomum ver vários cardos-estrelados serem levados como massa rolante pelos ventos outonais, característica talvez aludida no Salmo 83:13 e em Isaías 17:13”.


A Bíblia de Estudo Plenitude comenta o triste castigo de Adão:

Em fadigas obterás... o sustento indica dificuldades do homem no seu papel fundamental como trabalhador/sustentador; o trabalho terá dificuldades e futilidades (cardos e abrolhos... no suor do rosto). Esta batalha que dura toda a vida terminará em morte”.

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 3:17-19, pág. 9

Seguindo este raciocínio, devemos pensar que o Homem não foi criado para trabalhar? De maneira alguma! Em Gênesis 2:15 diz:

15. E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.
Gênesis 2:15

Portanto, não era o trabalho e sim a terra que, após a queda do Homem, foi amaldiçoada. Antes da queda, o trabalho, a vida e a terra eram um inexprimível prazer, recheadas das maiores e mais puras bênçãos presenteadas pelo próprio Senhor Deus.

29. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
30. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
Gênesis 1:29,30

E no capítulo seguinte:

9. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Gênesis 2:9

Evidentemente, hoje o trabalho não é mais um prazer, pois a terra é maldita e o próprio paraíso do Éden se perdeu. Mas a Bíblia promete nos devolver o prazer no trabalho, e principalmente o prazer de viver! Em uma citação escatológica, o profeta Isaías diz:

21. E edificarão casas, e as habitarão; e plantarão vinhas, e comerão o seu fruto.
22. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos.
23. Não trabalharão debalde, nem terão filhos para a perturbação; porque são a posteridade bendita do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles.
Isaías 65:21-23


Apesar da beleza destas palavras, não devemos abandonar nossos empregos para unicamente aguardar o glorioso retorno do Cordeiro. Devemos sim manter a esperança, a graça e obediência à Palavra, mas sem negligenciar nossas obrigações. Em outras palavras, devemos continuar trabalhando.   

Em sua segunda carta aos Tessalonicenses, o apóstolo Paulo dá uma dura repreensão àqueles que andavam desordenados, ou seja, ociosos e vagabundeando por aí.

6. Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu.
7. Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos houvemos desordenadamente entre vós,
8. Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós.
9. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes.
10. Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também.
11. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs.
12. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão.
2 Tessalonicenses 3:6-12
  
Há também aquela famosa passagem no livro de Provérbios, que é um verdadeiro alerta a nós, cristãos:

6. Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio.
7. Pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador,
8. Prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento.
9. Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?
10. Um pouco a dormir, um pouco a tosquenejar; um pouco a repousar de braços cruzados;
11. Assim sobrevirá a tua pobreza como o meliante, e a tua necessidade como um homem armado.
Provérbios 6:6-11

Voltando ao início do tema, este texto não quer dizer que trabalhar neste mundo é uma maldição. O trabalho também pode ser uma bênção. No livro de Eclesiastes diz:

24. Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer com que sua alma goze do bem do seu trabalho. Também vi que isto vem da mão de Deus.
Eclesiastes 2:24

E no capítulo 3:

13. E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.
Eclesiastes 3:13

Dados os argumentos acima, é possível concluir que:

·         O trabalho não é maldito e sim a terra que se tornou maldita devido ao pecado de Adão (Gn 3:17-19);
·         Nos novos céus e nova terra, o trabalho voltará a ser como nos dias do Éden, ou seja, um prazer (Is 65:17-25);
·         Mas, até a chegada deste glorioso dia, devemos continuar trabalhando (sem vadiagem e má vontade) enquanto que servindo e adorando ao Senhor Jesus (2 Ts 3:6-12; Pv 6:6-11);
·         E, finalmente, sem nos esquecer que, apesar da maldição da terra, o trabalho é sim uma bênção e um dom de Deus (Ec 2:24; 3:13).

Concluindo, eu sinceramente espero que este texto incite os irmãos a encararem o trabalho de outra maneira, permanecendo fiéis à palavra de Cristo e aguardando o dia em que ele volte a ser como foi nos dias do Éden, ou seja, uma bênção!


  
- Eduardo Redux



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