terça-feira, 9 de outubro de 2018

As Mulheres na Bíblia - Parte 8 - Ana



Ana, a exemplar serva do Deus Vivo que por sua devoção se tornou a mãe de um dos maiores profetas da Bíblia, o profeta Samuel. Quem foi Ana e como ela conquistou este maravilhoso mérito?

Antes do estudo, segue o significado deste belo nome:

Ana: significa "graciosa" ou "cheia de graça".

"O nome Ana vem do original em hebraico Hannah, mais tarde do latim Anna, que quer dizer 'graciosa', 'cheia de graça'".

“Há pelo menos três personagens bíblicas com este nome, onde duas delas se destacam. A primeira é mencionada no Velho Testamento como a mãe do profeta Samuel, conhecida por ter engravidado em idade muito avançada. A segunda aparece no Novo Testamento como uma profetisa que reconhece o menino Jesus como o Messias”.


No início do primeiro livro de Samuel conta sua história. Ali diz:

1. Houve um homem de Ramataim-Zofim, da montanha de Efraim, cujo nome era Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliú, filho de Toú, filho de Zufe, efrateu.

Apesar do nome incomum, esta cidade era chamada apenas de Ramá. A Bíblia de Estudo Plenitude nos descreve melhor esta famosa cidade:

Ramataim-Zofim, que normalmente aparece como Ramá, está localizada a 10 km ao norte de Jerusalém, na região montanhosa. Foi o lugar de nascimento, residência e sepultamento de Samuel. Elcana... efraimita: os levitas era comumente associados à localização geográfica da tribo onde residiam. A presente linhagem tem a sua raiz em Levi; desse modo, Samuel procede de linha sacerdotal levítica”.

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 1.1, pág. 285. 

Surpreendentemente (como tudo na Bíblia), esta cidade existe até hoje.


2. E este tinha duas mulheres: o nome de uma era Ana, e o da outra Penina. E Penina tinha filhos, porém Ana não os tinha.

Aqui é importante ressaltar duas coisas. Ana vivia em um casamento poligâmico, pois seu marido tinha duas esposas. A poligamia é hoje proibida no Novo Testamento, mas antigamente vigorava a lei de Levirato (Dt 25:5-10), onde um homem podia se casar com sua cunhada caso seu irmão morresse sem deixar filhos.

Não nos é informado se seu marido, Elcana, vivia nesta condição. A Bíblia de Estudo Plenitude, porém, afirma que era costume naquela época um homem se casar com um segunda esposa caso a primeira fosse estéril, mas não nos deixa referências legais mosaicas desta prática.

Outro ponto importante é que Ana era estéril. No Antigo Testamento, uma mulher que não podia ter filhos era vista como amaldiçoada por Deus, uma vez que Deus prometeu que na Terra Prometida não haveria mulher que sofresse aborto ou fosse estéril (Ex 23:26). 

3. Subia, pois, este homem, da sua cidade, de ano em ano, a adorar e a sacrificar ao Senhor dos Exércitos em Siló; e estavam ali os sacerdotes do Senhor, Hofni e Finéias, os dois filhos de Eli.

Por muito tempo (cerca de trezentos anos) o povo adorava ao Senhor em Siló, a cidade onde se encontrava o santo Tabernáculo, uma edificação de madeira e tecidos que precedia o famoso Templo de Jerusalém.


4. E sucedeu que no dia em que Elcana sacrificava, dava ele porções a Penina, sua mulher, e a todos os seus filhos, e a todas as suas filhas.
5. Porém a Ana dava uma parte excelente; porque amava a Ana, embora o Senhor lhe tivesse cerrado a madre.

Em outras traduções parte excelente está como “porção dupla”. A Bíblia Plenitude aponta uma tradução de difícil interpretação, onde dá a entender que Elcana tratava Ana como se ela, de fato, tivesse um filho.

6. E a sua rival excessivamente a provocava, para a irritar; porque o Senhor lhe tinha cerrado a madre.
7. E assim fazia ele de ano em ano. Sempre que Ana subia à casa do Senhor, a outra a irritava; por isso chorava, e não comia.
8. Então Elcana, seu marido, lhe disse: Ana, por que choras? E por que não comes? E por que está mal o teu coração? Não te sou eu melhor do que dez filhos?

Elcana nos dá exemplo de um varão valoroso e admirável nesta passagem. Apesar da esterilidade da esposa, ele nos mostra como ser um bom marido, amando sua esposa na saúde ou na doença e seguindo fielmente o mandamento paulino, do qual o apóstolo diz:

19. Maridos, amem suas mulheres e não as tratem com amargura.

Colossenses 3:18-19

A seguir, Ana se dirige ao tabernáculo e chora amargamente, fazendo um voto que mudaria o destino de todo o Israel.

11. E fez um voto, dizendo: Senhor dos Exércitos! Se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas à tua serva deres um filho homem, ao Senhor o darei todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.

Talvez esta passagem pareça um pouco incomum, mas Ana falava do voto de nazireu (Nm 6:1-8), do qual era usado para separar alguém para Deus durante um período específico de tempo. Durante este tempo o cabelo não era cortado. Sansão participou deste voto (Jz 13:5).

Ao ver Ana orando, o sacerdote Eli a acusa de embriaguez. Ela, porém, se justifica dizendo estar sofrendo de profunda tribulação. Então o sacerdote lhe responde:

17. Vai em paz; e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste.

Ao que parece, antigamente o sumo sacerdote tinha o poder e autoridade de conceder a bênção divina a alguém. Apesar de tomarmos posse da palavra dos pastores e ministros quando lançadas, hoje a bênção do sacerdote não é mais necessário, pois em João 14:13-14 Jesus disse:

13. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
14. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.


João 14:13,14

Ana volta para a casa e, no devido tempo, o Senhor lhe dá um filho.

20. E sucedeu que, passado algum tempo, Ana concebeu, e deu à luz um filho, ao qual chamou Samuel; porque, dizia ela, o tenho pedido ao Senhor.

No ano seguinte, a sábia mulher Ana não viola seu voto, ao invés ela revela seu intento ao marido:

22. Porém Ana não subiu; mas disse a seu marido: Quando o menino for desmamado, então o levarei, para que apareça perante o Senhor, e lá fique para sempre.

Mais uma vez Elcana se demonstra um admirável marido, pois este não desencoraja sua esposa, ao invés a apoia:

23. E Elcana, seu marido, lhe disse: Faze o que bem te parecer aos teus olhos; fica até que o desmames; então somente confirme o Senhor a sua palavra. Assim ficou a mulher, e deu leite a seu filho, até que o desmamou.

Chegado o tempo certo, Ana pega seu filho e mais algumas ofertas e se dirige à Siló. Deparando-se com Eli, ela diz:

26. E disse ela: Ah, meu senhor, viva a tua alma, meu senhor; eu sou aquela mulher que aqui esteve contigo, para orar ao SENHOR.
27. Por este menino orava eu; e o Senhor atendeu à minha petição, que eu lhe tinha feito.
28. Por isso também ao Senhor eu o entreguei, por todos os dias que viver, pois ao Senhor foi pedido. E adorou ali ao Senhor.


1 Samuel 1:1-28


É necessário apontar para um fato fundamental na atitude de Ana. Ela cumpriu seu voto ao Senhor. Muitas vezes, nós, os servos de Cristo, fazemos votos e irresponsavelmente o quebramos, trazendo por consequência a ira do Senhor sobre nós.

Na Bíblia existem algumas passagens que advertem aqueles que ousam quebrar os votos que fazem a Deus.

21. Quando fizeres algum voto ao Senhor teu Deus, não tardarás em cumpri-lo; porque o Senhor teu Deus certamente o requererá de ti, e em ti haverá pecado.
22. Porém, abstendo-te de votar, não haverá pecado em ti.
23. O que saiu dos teus lábios guardarás, e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao Senhor teu Deus, declarando-o pela tua boca.


Deuteronômio 23:21-23

4. Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos; o que votares, paga-o.
5. Melhor é que não votes do que votares e não cumprires.


Eclesiastes 5:4,5

E finalmente a lição a nós, cristãos, de como procedermos em relação ao voto:

33. Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor.
34. Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;
35. Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei;
36. Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto.
37. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.


Mateus 5:33-37

Deus se lembrará de quem não cumprir os votos em Seu nome, e o castigo será terrível. A Bíblia nos alerta quanto ao horripilante infortúnio de se cair nas mãos do Senhor. Na carta aos Hebreus diz:

31. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

Hebreus 10:31

No capítulo 2, há o belíssimo cântico de Ana, onde encontramos mais excelentes lições para toda a Igreja (leitura opcional).

1. Então orou Ana, e disse: O meu coração exulta ao SENHOR, o meu poder está exaltado no SENHOR; a minha boca se dilatou sobre os meus inimigos, porquanto me alegro na tua salvação.
2. Não há santo como o Senhor; porque não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus.

No v. 2 ela testifica do poder de Deus usando a metáfora de uma rocha. É muito semelhante ao livro de Salmos, quando Davi disse:

1. Vinde, cantemos ao SENHOR; jubilemos à rocha da nossa salvação.

Salmos 95:1

3. Não multipliqueis palavras de altivez, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança.

Aqui há outra valiosa lição e advertência aos soberbos de coração. Semelhantemente, no livro de Provérbios diz:

5. Todo homem arrogante é abominação ao Senhor; certamente não ficará impune.

Provérbios 16:5

4. O arco dos fortes foi quebrado, e os que tropeçavam foram cingidos de força.

Ana adverte que todo homem que confia em sua própria força serão abatidos. Isto fica claro na famosa passagem de Jeremias, que diz:

5. Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!

Jeremias 17:5

5. Os fartos se alugaram por pão, e cessaram os famintos; até a estéril deu à luz sete filhos, e a que tinha muitos filhos enfraqueceu.
6. O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela.

Jó falou algo semelhante em seu livro, quando seus filhos tragicamente morreram e ele bradou:

20. Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou.
21. E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor.
22. Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.


Jó 1:20-22

7. O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta.
8. Levanta o pobre do pó, e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do Senhor são os alicerces da terra, e assentou sobre eles o mundo.

Desta vez Salomão diz algo parecido. É Deus quem enriquece o homem, como ele mesmo o foi e deu testemunho em sua pregação, a seguir:

19. E a todo o homem, a quem Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus.

Eclesiastes 5:19

9. Os pés dos seus santos guardará, porém os ímpios ficarão mudos nas trevas; porque o homem não prevalecerá pela força.

Relacionando as passagens, faço aqui uma aproximação com o verso de Ana. Jesus diz que seus discípulos seriam imbatíveis na pregação do Evangelho, e creio que esta promessa dure até hoje.

19. Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum.

Lucas 10:19

10. Os que contendem com o Senhor serão quebrantados, desde os céus trovejará sobre eles; o Senhor julgará as extremidades da terra; e dará força ao seu rei, e exaltará o poder do seu ungido.

Esta é uma maravilhosa menção ao reino eterno do Cordeiro, escrita por Ana há mais de mil anos antes de Jesus vir ao mundo.

17. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
18. Quem crê nele não é julgado; mas quem não crê, já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.


João 3:17,18

E então se encerra o cântico de Ana, cheia de revelações aos cristãos.


Ana ainda visitava a Samuel, voltando de ano em ano a Siló. Além de Ana, Eli ainda abençoa a seu marido, profetizando ainda mais filhos além de Samuel.

20. E Eli abençoava a Elcana e a sua mulher, e dizia: O Senhor te dê descendência desta mulher, pela petição que fez ao Senhor. E voltavam para o seu lugar.
21. Visitou, pois, o Senhor a Ana, que concebeu, e deu à luz três filhos e duas filhas; e o jovem Samuel crescia diante do Senhor.


1 Samuel 2:1-21

Vemos que Ana ainda teve mais cinco filhos após Samuel. Quão abençoada é a vida daquele que crê e cumpre seus votos ao Senhor!

Resumindo em tópicos, seguem algumas lições que podemos aprender com Ana:

  • Ana obedecia e permanecia fiel ao seu marido, apesar deste se casar com outra que lhe desse filhos (1 Sm 1:2);
  • Apesar das provocações, Ana não confrontou sua rival, não pondo sol à sua ira (Ef 4:26-27);
  • Ana permaneceu firme, não desfalecendo sua fé no Senhor (Hb 11:1);
  • O voto de Ana foi duro, mas ela foi devota e obedeceu fielmente (1 Sm 22-24);
  • Ela agradece a Deus pelo milagre alcançado (1 Sm 2:1-2);
  • Em seu cântico, Ana de certa forma doutrina os fiéis quanto ao poder e justiça de Deus (1 Sm 2:1-10);
  • E principalmente, Ana mostra que a fidelidade a Deus nos recompensa com muito mais do que pedimos ou pensamos (1 Sm 2:21).     


E assim aprendemos com Ana que, se formos fieis e obedientes, receberemos grandes e maravilhosas bênçãos do Senhor!



- Eduardo Redux




sábado, 6 de outubro de 2018

O Divórcio é Pecado? - Parte Final


  
Continuando o estudo sobre a legalidade do Divórcio, na Bíblia há passagens onde ele parece ser lícito. No Velho Testamento, quando ele ainda vigorava, há uma interessante parte que se assemelhava muito ao divórcio.

No livro de Esdras, o povo finalmente retorna do cativeiro babilônico, mas encontra-se em pecado devido ao casamento ilícito com mulheres estrangeiras. Em Esdras 10:2 diz:

2. Então Secanias, filho de Jeiel, um dos descendentes de Elão, disse a Esdras: "Fomos infiéis ao nosso Deus quando nos casamos com mulheres estrangeiras procedentes dos povos vizinhos. Mas, apesar disso, ainda há esperança para Israel.
3. Façamos agora um acordo diante do nosso Deus, e mandemos de volta todas essas mulheres e seus filhos, segundo o conselho do meu senhor e daqueles que tremem diante dos mandamentos de nosso Deus. Que isso seja feito em conformidade com a Lei.


Esdras 10:2,3
  
Secanias falava a respeito da Lei de Moisés, sobre não se misturar com os povos cananeus (Ex 34:14-16). Esdras assente ao pedido do povo, dizendo:

10. Então se levantou Esdras, o sacerdote, e disse-lhes: Vós tendes transgredido, e casastes com mulheres estrangeiras, aumentando a culpa de Israel.
11. Agora, pois, fazei confissão ao Senhor Deus de vossos pais, e fazei a sua vontade; e apartai-vos dos povos das terras, e das mulheres estrangeiras.
12. E respondeu toda a congregação, e disse em altas vozes: Assim seja, conforme às tuas palavras nos convém fazer.


Esdras 10:10-12

E assim procede o povo pós-exílico, repudiando suas mulheres estrangeiras em uma espécie de divórcio legalizado.

Em uma observação pessoal, esta pode ser considerada como uma extensão do conselho paulino de não se misturar com os ímpios, o “jugo desigual” como ele dizia (2 Cor 6:14). O Novo Testamento ordena que não haja divórcio sob qualquer circunstância, mas ao invés de pecar se misturando com os ímpios, antes previna-se deles obedecendo ao Senhor.  

É necessário relembrar que a lei valia para o tempo de Esdras, mas hoje não vale mais, portanto é melhor que se obedeça a Deus antes do que sofrer a consequência por toda sua vida depois.

15. Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos. 

João 14:15


Mesmo Deus usa o divórcio como lição ao povo impenitente. No livro de Jeremias ele diz:

1. "Se um homem se divorciar de sua mulher, e, se ela, depois de deixá-lo, casar-se com outro homem, poderá o primeiro marido voltar para ela? Não seria a terra totalmente contaminada? Mas você tem se prostituído com muitos amantes e, agora, quer voltar para mim? ", pergunta o Senhor.

Jeremias 3:1

Nesta passagem, Deus recita a Lei de Moisés, onde a carta de divórcio proibia que alguém que, repudiando sua mulher, se casasse com ela de novo.

2. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem,
3. e o seu segundo marido não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e mandará embora a mulher. Ou também, se ele morrer,
4. o primeiro marido, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada. Seria detestável para o Senhor. Não tragam pecado sobre a terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança.


Deuteronômio 24:2-4

De fato, o povo de Israel várias vezes cometeu o pecado de prostituição espiritual contra Deus, mas Deus nunca realmente se “divorciou” do povo, ao invés, o castigou em todas as vezes (Ez 23:49).

Talvez esta seja uma evidência do infinito amor e longanimidade de Deus, pois se Ele realmente tivesse se “divorciado” de seu povo, este já teria sido destruído e desaparecido para sempre.

No livro de Oseias, Deus usa o casamento do profeta como uma alegoria para o próprio adultério espiritual de Israel. A mando do Senhor, o profeta se casa com uma mulher adúltera, geram filhos e os nomeiam segundo os pecados do povo.

2. O princípio da palavra do Senhor por meio de Oséias. Disse, pois, o Senhor a Oséias: Vai, toma uma mulher de prostituições, e filhos de prostituição; porque a terra certamente se prostitui, desviando-se do Senhor.

Oséias 1:2

Mas Gômer, a esposa de Oseias (Os 1:3), o trai e Deus manda repreende-la assim como o próprio Deus repreende o povo por suas prostituições.

2. Repreendam sua mãe, repreendam-na, pois ela não é minha mulher, e eu não sou seu marido. Retire ela do rosto a aparência adúltera e do meio dos seios a infidelidade.

Oséias 2:2

Em seguida Deus manda perdoa-la, assim como Ele perdoará os pecados de todo o povo nos últimos dias.

1. O Senhor me disse: "Vá, trate novamente com amor sua mulher, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o Senhor ama os israelitas, apesar de eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolos sagrados de uvas passas".
2. Por isso eu a comprei por cento e oitenta gramas de prata e um barril e meio de cevada.
3. E eu lhe disse: Você viverá comigo por muitos dias; você não será mais prostituta nem será de nenhum outro homem, e eu viverei com você.


Oséias 3:1-3

Isto pode ser difícil para os traídos, mas há uma solução para quem não quer passar pela dor do divórcio: o perdão.

Perdoar pode ser difícil, pois a ferida sentimental é muito difícil de se superar, mas esta lição tiramos do próprio Jesus Cristo quando ele disse:

21. Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?
22. Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete.


Mateus 18:21,22

Se a um irmão, que não tem qualquer laço conosco, devemos perdoar setenta vezes sete vezes, quanto mais a uma esposa ou marido.

12. Assim, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revesti-vos de um coração pleno de compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. 
13. Zelai uns pelos outros e perdoai-vos mutuamente; caso alguém tenha algum protesto contra o outro, assim como o Senhor vos perdoou, assim também procedei. 

Colossenses 3:13  

Entretanto, por ser um tema tão delicado, é melhor que cada um decida como melhor proceder.


No livro de Malaquias há a expressão máxima do sentimento de Deus em relação ao divórcio.

16. "Eu odeio o divórcio", diz o Senhor, o Deus de Israel, e "o homem que se cobre de violência como se cobre de roupas", diz o Senhor dos Exércitos. Por isso tenham bom senso; não sejam infiéis.

Malaquias 2:16

A Bíblia de Estudo Plenitude descreve a passagem acima:

“Quando duas pessoas se casam, Deus se coloca como uma testemunha do casamento, selando-o com a palavra mais forte possível: concerto ou aliança. A ‘aliança’ fala sobre a fidelidade e compromisso contínuos. Ela fica como uma sentinela divina sobre o casamento, para bênção ou para julgamento”.

“O divórcio aqui é descrito como violência. Iniciar o divórcio causa violência ao propósito de Deus para o casamento e ao cônjuge a quem alguém se juntou”.

“Contudo, onde quer que o marido e a esposa vivam de acordo com os votos do seu casamento, toda a força de um Deus que mantém a aliança fica atrás deles e em seu casamento. Que confiança saber que Deus sustenta o matrimônio. Seu poder e autoridade se colocam contra cada inimigo que, violentamente, o ameaçam de dentro ou de fora”.

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 2:13-16, pag. 938.

Tomem cuidado, meus irmãos. A Palavra de Deus deve ser levada a sério. Apesar da Bíblia aceitar o divórcio em caso de adultério, na Lei de Moisés a infidelidade conjugal era punida com a morte.

10. Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados.

Levítico 20:10

Jesus perdoou a mulher adúltera (Jo 8:1-11), mas o cônjuge prejudicado pode não perdoar uma traição (Pv 6:34-35). Tenham isso em vosso coração se a tentação vos afligirem.


Mas, se tal é a condição do homem para com a sua mulher (e vice versa), como proceder em caso de crise conjugal?

A Bíblia é clara quanto a crise no casamento. Na carta aos Efésios, Paulo nos exorta:

22. Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor;
23. Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo.
24. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.
25. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela,

Efésios 5:22-25

E o apóstolo o complementa de maneira mais sucinta em sua carta aos Colossenses. A Palavra diz:

18. Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como convém a quem está no Senhor.
19. Maridos, amem suas mulheres e não as tratem com amargura.


Colossenses 3:18-19

Desta forma, o divórcio nunca será um risco ao casamento, pois o casal se tratará perenemente com amor, se não por sentimento, então por mandamento, em obediência única a Jesus Cristo.

Resumindo em tópicos, deixo aqui as orientações bíblicas quanto à licitude do divórcio:

·         A carta de divórcio não é mais válida, portanto o divórcio sumário está oficialmente proibido no Novo Testamento (Mt 5:31-32);
·         Entretanto, o divórcio é lícito em caso de adultério (Mt 18:9);
·         O divórcio pode ser lícito também se o cônjuge induzir o crente à prostituição espiritual, como a idolatria, o politeísmo, a magia e o paganismo (Ex 34:14-16);  
·         Não devemos nos casar com os ímpios, submetendo-nos ao jugo desigual (2 Co 6:14-16, Es 10:10-12);
·         Em caso de eventual separação, o casado deve se reconciliar com seu cônjuge ou abster-se totalmente de se casar novamente (1 Cor 7:10-11);
·         Não devemos nos divorciar se nos convertermos e o cônjuge não (1 Cor 7:10-11);
·         Porém o divórcio é válido se o cônjuge ímpio quiser a separação. Mas a iniciativa deve partir sempre dele, e não do crente (1 Cor 7:15-16);
·         O casamento é indissolúvel, até que a morte nos separe (Mt 19:11-12);
·         O divórcio pode ser evitado se a parte prejudicada conceder o perdão (Os 3:13);
·         O casamento pode ser mantido se obedecermos à Cristo, amando-se mutuamente por mandamento (Ef 5:22-25, Co 3:18-19);
·         E o último e mais importante, Deus odeia o divórcio (Ml 2:16).

Assim concluo este extenso estudo. Ainda poderia citar muito mais passagens, mas espero que o conteúdo citado elucide as dúvidas que, porventura, o cristão vir a ter.


- Eduardo Redux



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O Divórcio é Pecado? - Parte 1



O divórcio é pecado segundo a Bíblia? Esta é uma dúvida que parece ser ignorada em nossa sociedade moderna, inclusive pelos cristãos. Entretanto, há condições e exceções em que a Bíblia o permite?

A parte mais incisiva da Bíblia quanto ao divórcio encontra-se no evangelho de Mateus. Os fariseus, com a intenção de flagrar Jesus em blasfêmia, lhes perguntaram se era lícito repudiar (ou separa-se) de sua mulher. Este os respondeu:

4. Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez,
5. E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne?
6. Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.


Mateus 19:4-6  

Neste trecho, Jesus cita a primeira passagem bíblica onde evidencia-se a fundação do casamento monogâmico. No capítulo 2 do livro de Gênesis diz:

22. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.
23. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada.
24. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.


Gênesis 2:22-24

Para quem quiser saber mais sobre a legitimidade do casamento monogâmico, segue o link de minha postagem no meu blog:


Em seguida, os fariseus o perguntam:

7. Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?

Mateus 19:7

Apesar do ardil para prenderem Jesus, esta pergunta foi muito pertinente. De fato, os fariseus citavam a passagem do livro de Deuteronômio, escrito por Moisés no Antigo Testamento.

1. Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, então será que, se não achar graça em seus olhos, por nela encontrar coisa indecente, far-lhe-á uma carta de repúdio, e lha dará na sua mão, e a despedirá da sua casa.

Deuteronômio 24:1

Desta forma, todo o povo se encheu de dúvida, como muitos cristãos se enchem hoje, quanto à validade do divórcio perante o Senhor. Mas Jesus, em sua infinita sabedoria e conhecimento das Escrituras, novamente os responde, dizendo:

8. Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.
9. Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.


Mateus 19:8-9

Aqui é necessário uma breve lição teológica quanto ao termo fornicação (v. 9). Em algumas traduções é substituído por “prostituição”, “relações sexuais ilícitas” ou “adultério”. A Bíblia de Estudo Plenitude, referenciando o ensino sobre o adultério no capítulo 5 de Mateus, emite uma nota, a seguir:

“Os fariseus interpretaram os ensinamentos de Moisés sobre o divórcio (Dt 24.1) como significando que um homem poderia divorciar-se de sua esposa mediante qualquer motivo. Aqui, Jesus opõe-se ao abuso deles, restringindo o divórcio aos fundamentos das relações sexuais ilícitas, uma expressão que significa qualquer desvio dos padrões bíblicos claramente definidos para a atividade sexual (por exemplo, homossexualidade, adultério, fornicação e prostituição).

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 5.31-32, pag. 960.

Esta palavra no texto original (em grego do século 1) é πορνεί , lendo-se porneia , e tem significado idêntico ao citado na Bíblia de Estudo Plenitude. No site biblehub.com é traduzida como fornicação, prostituição e idolatria.

Fonte da passagem bíblica em grego: https://biblehub.com/whdc/matthew/19.htm

Fonte da definição de porneia (em inglês): https://biblehub.com/greek/4202.htm
  

Em uma observação pessoal, pude relacionar o porneia de Mt 19:9 com uma prostituição não somente carnal, mas espiritual segundo a Bíblia.

Para Deus, aqueles que abandonam a fé em seu nome e entregam-se à idolatria, cometem adultério espiritual, prostituindo-se a outros deuses. Isto fica evidente no livro de Êxodo, nas seguintes passagens:

14. Nunca adore nenhum outro deus, porque o Senhor, cujo nome é Zeloso, é de fato Deus zeloso.
15. "Acautele-se para não fazer acordo com aqueles que já vivem na terra; pois quando eles se prostituírem, seguindo aos seus deuses e lhes oferecerem sacrifícios, convidarão você e poderão levá-lo a comer dos seus sacrifícios
16. e escolher para os seus filhos mulheres dentre as filhas deles. Quando elas se prostituírem, seguindo aos seus deuses, poderão levar os seus filhos a se prostituírem também”.


Êxodo 34:14-16

Ou no livro de Oséias quando Deus, falando através do profeta, diz:

12. Eis que o meu povo tem consultado ídolos de madeira, e de um pedaço de pau acreditam que recebem respostas. Ora, um espírito de prostituição os seduz; e eles, prostituindo-se, se afastam e abandonam o seu Deus.   

Oséias 4:12

Para quem quiser saber mais sobre a prostituição espiritual, deixo os links de minhas postagens sobre este assunto no meu blog:



Todavia, é correto afirmar que a prostituição espiritual valida o divórcio?

Paulo, em diversas passagens bíblicas, fala a respeito do casamento. Em uma de suas passagens ele fala sobre o famoso “jugo desigual”. Na segunda carta aos Coríntios ele diz:

14. Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?
15. E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?
16. E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.


2 Coríntios 6:14-16

Portanto, não devemos nos unir com os infiéis, pois estes nos farão pecar, induzindo-nos ao pecado muitas vezes ao da prostituição. Isto significa que não devemos sequer cogitar casamento com eles, pois há o risco de nos tornarmos igualmente idólatras.

Devemos conservar a nossa fé e salvação em Cristo.

Em sua primeira carta aos Coríntios, o apóstolo nos esclarece mais profundamente este assunto. Primeiro ele reforça a ideia de não nos divorciarmos, assim cumprindo o mandamento divino:

10. Todavia, aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido.
11. Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.


1 Coríntios 7:10,11

Em seguida, nos aconselha a permanecermos com os nossos cônjuges, independente destes se converterem ou não.

12. Mas aos outros digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a abandone.
13. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não deixe o marido.
14. Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.


1 Coríntios 7:12-14

Mas se, por alguma razão, o cônjuge descrente vier a separar-se, estamos livres para deixa-los ir, assim validando o divórcio.

15. Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz.
16. Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?


1 Coríntios 7:15,16


Não é pecado o divórcio entre um fiel e um infiel, mas a iniciativa deve vir do infiel sempre. A Bíblia de Estudo Plenitude nos elucida melhor esta ideia:

“Aos mais: Essa seção trata do casamento entre um crente e um descrente. Jesus não orientou sobre isso; então, Paulo deve responder com sua autoridade apostólica. Os casamentos em que um dos parceiros se torna cristão mais tarde são válidos e devem permanecer intactos. Qualquer separação dever ser iniciada pelo parceiro descrente”.

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 7:12-16, pag. 1187.

Há um complemento em outra nota, a seguir:

“Quando um descrente inicia um divórcio além do controle do crente, o crente está livre do relacionamento e não fica sujeito à servidão de mantê-lo intacto. Paulo se cala em relação a um novo casamento em uma situação como esta”.

Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude, nota 7:15, pag. 1187.

Voltando ao evangelho de Mateus, os discípulos não ficam nada contentes com o ensinamento.

10. Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar.

Mateus 19:10

Jesus, porém, não se importa com seus descontentamentos. Na verdade ele não dá a mínima. Em sua resposta ele diz:

11. Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido.
12. Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.


Mateus 19:11,12



Continua na Parte Final.




segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Como Sermos Bons Pais segundo a Bíblia?



Muitos pais parecem se favorecer da prerrogativa do quinto mandamento quanto à criação dos filhos, mas este é, de fato, um embasamento bíblico para os negligenciarmos?

No livro de Êxodo diz:

12. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.

Êxodo 20:12

Desta maneira, nós, os filhos, estamos biblicamente obrigados a honrar nossos pais. Este é o quinto mandamento, não estipulado ou concebido pelos homens, mas ordenado pelo próprio Deus.

Entretanto, conforme dito acima, muitos pais negligenciam seus filhos e se blindam da responsabilidade paterna se utilizando do mandamento divino como pretexto. Assim eles não assumem seus próprios erros e – pior ainda – não os corrigem.   

Mas o que seria negligenciar? O site dicio.com o define:

1.       Não ter cuidado com;
2.       Ter negligência nos modos como se trata algo ou alguém;
3.       Desleixar ou desleixar-se: a mãe negligenciou os filhos; ele se negligenciou após o seu casamento.


Vejamos alguns exemplos bíblicos do que se acontece quando os pais negligenciam os filhos. A preferência entre os filhos lhes causa insegurança e ressentimento. Isaque e Rebeca tiveram dois filhos, Esaú e Jacó, mas nutriram sentimentos de preferência entre eles (Gn 25:28). Jacó, com a ajuda de sua mãe, engana a Isaque, roubando a bênção da primogenitura (Gn 27:18-29). Isto o ocasionaria um terrível pecado que o perseguiria por quase vinte anos (Gn 31:41).    

Apesar de passar por esta situação desagradável, Jacó parecia não ter aprendido a lição. Com o nascimento de José (Gn 30:22-24), fruto de Raquel, a mulher que ele realmente amava (Gn 29:18), ele também nutre um sentimento de favoritismo entre os seus filhos (Gn 37:3-4), ocasionando uma tentativa de homicídio contra a vida de José (Gn 37:18) e consequentemente sua venda como escravo (Gn 37:27-28).

Portanto, vemos como a preferência entre os filhos causa danos profundos na família.

Eli, o sacerdote, tinha dois filhos, Hofní e Fineias. Estes, devido à sua tamanha perversidade, a própria Bíblia os classificou como filhos de Belial (1 Sm 2:12). Mas, diferente dos patriarcas, Eli não tinha preferência entre seus filhos, ao contrário, os amava profundamente, a tal ponto de honrá-los mais do que ao próprio Senhor (1 Sm 2:29).  

Esta era uma clara violação do primeiro mandamento, o que seria intolerável para alguém que era um sacerdote. Jesus, séculos mais tarde, reiterou o mandamento dizendo:

37. E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.
38. Este é o primeiro e grande mandamento.


Mateus 22:37,38

E ainda o refinou trazendo-o para si mesmo:

37. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.

Mateus 10:37

A transgressão de Eli o ocasionou uma duríssima pena, a desolação de sua casa (1 Sm 2:31), a morte de seus dois filhos (1 Sm 2:34) e a mendicância de quem porventura restasse (1 Sm 2:36). Neste caso, Eli não nutriu sentimento de favoritismo entre seus filhos, mas de ama-los mais do que ao próprio Deus.


O Velho Testamento é bastante intolerante quanto aos filhos desobedientes. Tão intolerante a ponto de mata-los. O livro de Deuteronômio diz:

18. Quando alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos,
19. Então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar;
20. E dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão.
21. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá.


Deuteronômio 21:18-21

A brutalidade desta pena capital vigorou por muitos anos, mas graças ao advento do nosso Senhor Jesus, hoje o procedimento quanto aos filhos rebeldes tornou-se mais brando. Jesus deixa isto claro na famosa parábola do filho pródigo.

Na parábola Jesus narra a história de um homem que tinha dois filhos. O filho mais novo pede sua herança e parte para um terra distante, pretendendo viver de maneira desordenada e imoral. Porém, houve fome naquela terra e ele passa por necessidade extrema, a ponto dele querer comer inclusive a ração dos porcos. Arrependido e desiludido, ele decide retornar ao seu pai, mas antes diz a si mesmo:  

18. Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti;
19. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros.
20. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
21. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.


Esperando ser tratado com severidade e castigo, o pai antes diz:

22. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés;
23. E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos;
24. Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se.


Lucas 15:11-24

A parábola termina com a indignação do filho mais velho, este mais obediente e esforçado perante seu pai, mas o pai se justifica dizendo que seu irmão, sendo um pródigo e passivo de morte, passou desta para a vida, sendo justificado através do arrependimento e do perdão.

Todavia, é importante ressaltar que esta é uma opinião pessoal sobre como proceder diante da rebeldia dos filhos.

Jesus Cristo nos ensina que devemos sempre conceder o perdão, mas isto não significa que não devemos disciplina-los quando necessário. O sábio rei Salomão é muito claro ao dizer que a punição corporal (tratado com controvérsia em nossos dias) é uma forma de demonstrar amor aos nossos filhos. Ele diz:

24. O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga.

Provérbios 13:24

E o reforça com mais palavras, dizendo:

15. A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela.

Provérbios 22:15

De maneira rápida, o site dicio.com define “estultícia” como estupidez, falta de discernimento e bom senso.

O próprio Deus repreende aqueles que o amam. Isto é evidenciado na seguinte passagem bíblica:

5. E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido;
6. Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho.
7. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?

Hebreus 12:5-7

Portanto, castiga-los fisicamente é uma forma prudente de educação, assim evitando a infame negligência.


Protegidos pelo quinto mandamento e orientados biblicamente quanto ao castigo físico, os pais devem então destratar seus filhos? É claro que não!

Na carta aos Efésios, o apóstolo Paulo diz:

1. Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo.
2. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa;
3. Para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra.
4. E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.


Efésios 6:1-4

O que seria provocar os filhos à ira? O site esbocandoideias.com.br nos dá uma detalhada definição:

a)  Falta de moderação no relacionamento com os filhos: muitos pais usam de sua autoridade como pais para exercer um domínio ameaçador (desequilibrado e violento) diante do filho, fazendo com que ele seja como que um fantoche sem sentimentos, sem sonhos, sem vontades, que deve apenas obedecer a todas as ordens sem questionar nada. Isso gera conflitos (ira) porque a função dos pais é conduzir os filhos ao crescimento em todos os sentidos e não serem dominadores tiranos sobre eles. Pais tiranos produzirão filhos que sempre serão provocados a viver uma vida cheia de ira.

b)      Injustiça nas punições: O lar é um dos primeiros lugares onde os pais devem ensinar o conceito de justiça aos filhos. Pais que usam de punições injustas, exageradas e que visam unicamente trazer sofrimento ao filho, gerarão no coração deste filho um sentimento de ódio, de raiva, de desespero, quando o sentimento que os pais deveriam buscar em suas repreensões é o de condução ao arrependimento e edificação por meio da justiça.

c)       Exigências sem sentido: Alguns pais irritam seus filhos quando os tratam como se fossem seus escravos pessoais, fazendo exigências sem sentido e usando os filhos para satisfazer exigências pessoais que nada têm a ver com criar os filhos na disciplina do Senhor. Conflitos desnecessários surgem aqui, pois os filhos, por mais imaturos que possam ser, conseguem perceber essa disfunção nas exigências dos pais. Um exemplo prático é um pai que exige que seu filho trilhe o caminho de uma certa profissão sem ter em mente o desejo do filho.

d)      Importunações sem propósito: Alguns pais irritam seus filhos por usar sua experiência de vida para criar importunações sem propósito que tem o único objetivo de trazer alguma dor, alguma punição, alguma tristeza aos filhos. Isso, definitivamente, não é o alvo e não atinge o objetivo de criar os filhos na disciplina do Senhor (orientado na Bíblia). Um exemplo prático é um pai que sempre provoca seu filho em alguma deficiência que ele tem. Por exemplo, chamando-o de burro porque ele tirou uma nota baixa na escola.



Nenhum pai prudente e que ama a seu filho deve instrui-lo a andar nos caminhos pecaminosos do mundo, tampouco doutrina-los no engano das ideologias ateístas, idolatrias politeístas, sabedorias mundanas e as carnalidades sexuais da fornicação e do adultério. Devemos ensina-los sempre nos caminhos de Deus.

5. Sabes, pois, no teu coração que, como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o Senhor teu Deus.
6. E guarda os mandamentos do Senhor teu Deus, para andares nos seus caminhos e para o temeres.


Deuteronômio 8:5,6

18. Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na vossa alma, e atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontais entre os vossos olhos.
19. E ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te;

Deuteronômio 11:18,19

Separando em tópicos, deixo aqui uma breve orientação quanto a criação dos filhos:

·         Os filhos devem honrar seus pais, pois é mandamento do Senhor (Ex 20:12);
·         Não devemos ter favoritismo e preferência entre os filhos. Os resultados podem ser desastrosos (Gn 25:28; 37:3-4);
·         Não devemos ama-los mais do que a Deus. Os resultados podem ser trágicos (1 Sm 2:29; Mt 22:37-38);
·         Devemos estar sempre dispostos a perdoa-los (Lc 15:11-24);
·         Devemos castiga-los com prudência, fisicamente se necessário (Pv 13:24; 22:15; Hb 12:5-8);
·         Não devemos provoca-los à ira, desprezando-os ou descontando neles nossas frustrações (Ef 6:1-4);
·         Devemos sempre ensina-los nos caminhos de Deus, sendo esta a base de sua educação (Dt 8:5-6; 11:18-19).

Portanto, assim concluo este breve estudo sobre como criar os nossos filhos nas orientações do Senhor.


- Eduardo Redux




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